quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O segredo da mentira está nos detalhes – Parte 1: o braço científico



Iniciamos hoje o processo de desconstrução de uma grande mentira que está sendo imposta a nós de maneira sofisticada. As mentiras podem ser de difícil reconhecimento, pois frequentemente vem disfarçadas. No caso em questão, trata-se da forma mais sorrateira de enganar, a interpretação parcial de fatos não necessariamente mentirosos.
É como dizer: “no momento em que o cachorrinho foi atropelado, o seu filho passava pela rua”. Pode até ser verdade, o que não significa que um fato seja relacionado ao outro. Usa-se um dado verdadeiro para induzir uma conclusão falsa e maldosa.

A mentira em questão é: os alimentos industrializados não colaboram para a obesidade, mas sim o desbalanço entre calorias ingeridas e gastas. Essa é a estratégia da Coca-Cola (um exemplo) para sobreviver e manter suas vendas no momento em que fica evidente a relação do consumo de bebidas açucaradas e a epidemia de obesidade no Brasil e no mundo. Propagandas lindas (serão destrinchadas na parte 2 desta série) deixam claro: todas as calorias contam, e se você não fizer exercício para gastá-las acabará obeso. Ou seja, a Coca-Cola quer te ajudar a resolver o problema, obviamente sem que você deixe de consumir seus produtos e enriquecer seus acionistas que, convenhamos, estão pouco se lixando se você e seu filho estão com problemas de saúde.
Para a mentira virar verdade é necessário saber argumentar. Há 2 semanas a comunidade médica colaborou para esta mentira com a publicação de um estudo constrangedor publicado na maior revista médica existente.
Com felicidade recebi, sem esforço em meu Twitter, a notícia de que a mais prestigiada revista médica do mundo, o New England Journal of Medicine, havia publicado um artigo sobre obesidade com o título “Myths, presumptions and facts about obesity”, que livremente traduzo como “Mitos, suposições e fatos sobre a obesidade”. A revista mais importante do mundo resolvia falar sobre um dos maiores problemas de saúde pública do mundo moderno, afinal Medicina não é só tratar doenças, mas também preveni-las.
            Só para colocar o assunto em perspectiva, devo dizer que ser convidado a escrever um texto de revisão nesta revista é, provavelmente, o maior reconhecimento que um médico pode receber. O cara tem que ser a maior referência mundial no assunto, já que a visibilidade é imensa e, nos dias de hoje, as publicações tem enorme ressonância inclusive na mídia geral. É um controle de qualidade.

            Vamos juntos entender o que foi escrito:
Os mitos descritos no artigo são fúteis e não merecem maior atenção. Entre os fatos chama a atenção a afirmação de que programas de educação alimentar que não envolvam os pais não são eficientes. Literalmente o que está escrito é o seguinte:

“Para crianças obesas, programas que envolvam os pais promovem maior perda e manutenção do peso. Programas oferecidos apenas em escolas ou em estruturas fora de casa podem ser convenientes e politicamente lucrativos, mas os resultados são melhores quando os pais são envolvidos.”

Ou seja, se um político propuser alterações na alimentação escolar desconfie, ele é um demagogo buscando dividendos políticos.
Como fato foi classificada também a eficiência de substitutos de refeições para o emagrecimento (os velhos e bons shakes), a despeito de alguns estudos desaconselharem seu uso, link abaixo:
- http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22465867

O terreno mais pantanoso ainda está nas ditas suposições sem base acadêmica, portanto sem valor científico. Condutas de saúde pública tem que ser baseadas no rigor científico sempre, e a ausência de evidências pode ser usada como argumento para não alterar o modelo vigente. Cito as mais polêmicas (observe que as afirmações abaixo são tratadas como não provadas):
  • A infância precoce é o período em que aprendemos hábitos de alimentação e exercício que influenciam nosso peso por toda a vida
  • Comer mais frutas e vegetais resulta em perda ou menor ganho de peso, independente de outras mudanças de estilo de vida
  • “Beliscar” (do inglês snacking) contribui para o ganho de peso 

Pode até ser verdade. Não há estudos que comprovem estas ideias. Neste caso chama mais atenção o que deixou de ser dito.
Não há NENHUMA citação a colaboração de refrigerantes e outras bebidas açucaradas para a obesidade a despeito dos recentes e respeitáveis estudos reforçando esta associação, publicados no American Journal of Clinical Nutrition e no próprio New England Journal of Medicine, cujos links compartilho:
- http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1203034?query=featured_home

NENHUMA citação à comprovada eficiência dos tratamentos comportamentais no tratamento da obesidade, dado proveniente de um estudo realizado pelo governo americano cujo resultado foi usado para que o sistema de saúde americano passasse a reembolsar este tratamento. Abaixo o link.
- http://www.uspreventiveservicestaskforce.org/uspstf11/obeseadult/obeseart.htm

Resumo da ópera: nenhuma intervenção fora de casa funciona; só intervenções dos pais são eficientes; beliscar não engorda; aumentar ingestão de frutas e vegetais não emagrece; alguns medicamentos, produtos que substituem refeições (os shakes) e a cirurgia bariátrica emagrecem. 
Silêncio sepulcral quanto as bebidas açucaradas e o papel do tratamento comportamental para obesos.
 Entendi. Se eu correr 10km por dia posso continuar tomando meu litro diário de Coca-Cola sem engordar. Perfeito.
Como interpretar estas afirmações a luz do debate atual quanto a redução da oferta de alimentos não saudáveis em escolas e para crianças? Como relacionar estas afirmações à recorrente estratégia das indústrias alimentícias de defender que a causa da obesidade é a falta de exercício e que todas as calorias contam (cem calorias proveniente de manga valem o mesmo que cem calorias de um bombom)? 

Como consequência óbvia, não adianta restringir doces e refrigerantes em escolas, não adianta trocar o pacotinho de biscoito do lanche da manhã por uma maçã. Se você ou o seu filho são obesos (em geral ambos são), a culpa é dos pais que não educam e dos preguiçosos que não fazem atividade física. Afinal se você tomar uma Coca por 100 e tantas calorias e der 14 abraços (isso está na propaganda) você será magro sem precisar desvalorizar as ações da Coca-Cola (!!!!!!).

Esse artigo é publicado no momento em que diversas instituições lutam para tirar os alimentos industrializados das escolas e substituir por alimentos saudáveis. Este artigo é publicado no momento em que segmentos da sociedade lutam para restringir o marketing de alimentos cujo alvo são as crianças. Este artigo é publicado no momento em que começam a pulular nas mídias propagandas com o argumento de que o problema da obesidade não são os industrializados, mas a falta de atividade física e o excesso de calorias, independendo de onde venham estas calorias. Quem foi recentemente ao cinema já viu uma delas. Que coincidência conveniente!!!
  
Acionistas da Coca-Cola devem chorar de felicidade quando veem a tese defendida pela companhia corroborada pela maior revista médica do mundo. Chorariam mais ainda se não tivessem investido tanto para que esta publicação fosse possível.
O texto foi escrito por vinte autores de cinco instituições de ensino médico dos Estados Unidos e uma da Dinamarca. O autor principal é David B. Allison, Ph.D.. Lá no final da publicação estão os ditos conflitos de interesse, situações que possam colocar em dúvida a imparcialidade do autor e que devem ser citadas por força de regulamentação. Os conflitos de interesse de todos os autores, somados, ocupam meia página.
O autor principal cita os seguintes conflitos (respire fundo e tente ler sem respirar até o final): “ o dr. Alisson reporta: ser um membro não remunerado do conselho (board member) para o International Life Sciences Institute of North America (organização para pesquisa patrocinada pela indústria); receber pagamento por ser membro do conselho da Kraft Foods; receber honorários de consultoria da Vivus (produtos anti-obesidade), Ulmer and Berne (escritório de advocacia), Paul, Weiss, Rifkind, Wharton, Garrison, Chandler Chicco, Arena Pharmaceuticals, Pfizer, National Cattlemen´s Association (a revista errou, o nome inteiro é national cattlemen´s beef association), Mead Johnson Nutrition, Frontiers Foundation, Orexigen Therapeutics e Jason Pharmaceuticals; receber honorários de palestrante de Porter Novelli and the Almond Board of California; receber pagamento para preparo de manuscritos de blá blá blá (cansei de escrever).
Não, não terminou: através de sua instituição (universitária) recebeu patrocínios (grants) de Wrigley (fabricante de balinhas e chicletes), Kraft Foods, Coca-Cola, Vivus, Jason Pharmaceuticals (fabricante de shakes), Aetna Foundation e McNeil Nutritionals; financiamento (fundings) da Coca-Cola Foundation, Coca-Cola, PepsiCo, Red Bull, World Sugar Research Organisation (?????), Archer Daniels Midland, Mars, Eli Lilly and Company, Merck.

A intenção da publicação é clara: dar uma base acadêmica, científica, para a imbecil tese de que é a falta de exercícios o único problema a ser corrigido para reverter a obesidade. Vale dizer que a tese não é falsa, é apenas a única conveniente para aqueles que ganham a vida vendendo água com corante e quilos de açúcar. As semelhanças com a batalha entre sociedade civil e a indústria tabagista nos anos 70 e 80 são evidentes.
Como uma revista com a credibilidade do New England Journal of Medicine aceita como autor principal alguém com este nível de conflito de interesse? Como aqueles que deveriam ser as maiores autoridades médicas na área de alimentação se tornaram tão, digamos, "ligados a indústria alimentícia"? Como podem as instituições médicas serem tão promíscuas em suas relações com a indústria?
A resposta me parece clara: os médicos escolheram o seu lado. Escolheram o lado de quem paga suas contas. Infelizmente quem paga suas contas não são as crianças doentes ou seus pais preocupados, quem paga suas contas é a indústria alimentícia.
A publicação deste estudo é uma vergonha para a classe médica e para o periódico.  Causa constrangimento olhar para meus colegas americanos com o mesmo sentimento que nutro pelos nossos políticos com relações espúrias com empresas e empresários, usando sua influência para sabotar os interesses da população. Aos políticos atribuímos o termo corrupto; que termo deveríamos reservar para meus colegas?
Infelizmente, a vanguarda do combate a obesidade não está com os médicos. Não está com as sociedades médicas e seus conflitosos patrocínios.
Infelizmente hoje os cidadãos estão sozinhos, defendidos apenas por ONGs como o Instituto Alana, alguns exemplos positivos como o Jamie Oliver e, exceções que confirmam a regra, alguns médicos e nutricionistas que ainda ganham sua vida a forma antiga, tentando ajudar seus pacientes a se defenderem de tanta corrupção.


Erico Souza de Oliveira
Médico Nefrologista 
(Também conhecido como "Querido Marido")

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